Explorando a Rica Cultura de Angola e Portugal

A Capela de São Cristóvão no Morro do Wako
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Memória, Travessia e Permanência na Cela (1974–2009)
I. O Lugar que Molda o Homem
Há lugares que não são apenas coordenadas no mapa.
São fundações interiores.
São pontos de origem que continuam a existir dentro de nós, mesmo quando atravessamos oceanos, décadas e mundos distintos.
No alto do Morro do Wako, dominando o planalto verde da Cela e a paisagem ampla do Waku Kungo, ergue-se a pequena Capela de São Cristóvão. Concluída em 1974, branca e simples contra o céu imenso de Angola, parecia representar continuidade num território marcado por trabalho, fé e comunidade.
Vista de baixo, a capela não impressionava pela dimensão. Não era catedral, nem monumento de mármore. Era discreta. Humilde. Mas no cimo daquele morro, tornava-se farol.
Quem ali subia sentia que o horizonte se abria. A vastidão do planalto revelava-se em camadas de verde, interrompidas pelo vermelho da terra e pelo azul absoluto do céu. O vento circulava livremente, como se quisesse lembrar que aquele lugar estava acima das pequenas disputas do quotidiano.
Para nós, miúdos da Cela, o morro não era apenas um ponto alto. Era aventura, desafio e pertença. Subíamos com pressa, descíamos a correr, sentíamo-nos donos daquele espaço que parecia infinito.
A capela fazia parte dessa geografia emocional.
Não era apenas um edifício religioso. Era referência. Era ponto de orientação. Era símbolo silencioso de algo maior do que cada um de nós.
Naquele momento, ninguém imaginava que a sua conclusão coincidiria com o fim de uma era.
Em 1974, a vida parecia ter continuidade natural. As famílias trabalhavam. As escolas funcionavam. As celebrações mantinham o seu ritmo. O futuro era pensado como prolongamento do presente, não como ruptura.
A capela nascia num tempo que ainda acreditava na permanência.
Para nós, era apenas a capela do morro.
O lugar das celebrações.
O ponto onde fé e paisagem se encontravam.
Mas, olhando hoje para trás, percebo que era mais do que isso.
Era um marcador de identidade.
Era o lugar onde o céu parecia mais próximo da terra. Onde aprendíamos, sem saber, que o homem é pequeno diante da paisagem — mas responsável pelo que constrói dentro dela.
O Morro do Wako moldou-me antes mesmo de eu compreender que estava a ser moldado.
Ali aprendi a dimensão do horizonte.
Ali aprendi o silêncio do vento.
Ali aprendi que o esforço da subida faz parte da recompensa da vista.
E talvez seja por isso que, décadas mais tarde, ao regressar e respirar fundo naquele mesmo cimo, não senti apenas nostalgia.
Senti reconhecimento.
O lugar não me esquecera.
E eu também não o tinha esquecido.
II. A Comunidade Antes da Ruptura
Antes da ruptura, havia rotina.
E a rotina é um dos maiores sinais de estabilidade.
Na Cela, a vida organizava-se em torno do trabalho, da escola, da família e dos ciclos da terra. O dia começava cedo. As fazendas despertavam com o som do movimento agrícola. O comércio abria portas. As crianças seguiam para a escola. Havia horários. Havia responsabilidades. Havia expectativas claras sobre o que significava cumprir.
A comunidade não era abstracta. Tinha nomes, rostos, vozes.
O padeiro.
O professor.
O comerciante.
O agricultor.
O mecânico.
A enfermeira.
O padre.
As relações eram diretas. O cumprimento tinha peso. A palavra dada tinha consequência. O olhar nos olhos era forma de contrato.
Havia diferenças sociais, como em qualquer sociedade. Havia imperfeições, tensões, desigualdades. Não era um paraíso. Mas era um tecido humano funcional. Havia estrutura.
As celebrações na Capela de São Cristóvão eram momentos de convergência. Não apenas religiosa, mas social. Ali cruzavam-se gerações. Ali se partilhavam notícias. Ali se confirmava que pertencíamos ao mesmo espaço moral.
Ser “temente a Deus” não era slogan. Era código de conduta.
Significava trabalhar com seriedade.
Significava respeitar os mais velhos.
Significava educar os filhos com disciplina.
Significava manter alguma humildade perante o desconhecido.
O planalto da Cela, com o seu colonato agrícola estruturado, não era apenas paisagem. Era projeto humano. Casas alinhadas. Campos cultivados. Infraestruturas básicas. Vida organizada em torno da produção e da cooperação.
Havia sentido de continuidade.
Os adultos falavam do futuro como extensão natural do presente. Planeava-se. Construía-se. Investia-se. A capela concluída em 1974 encaixava nesse espírito: mais um passo na consolidação de uma comunidade que acreditava estar a sedimentar raízes.
As crianças, entre as quais eu, absorvíamos tudo isso sem consciência histórica. Aprendíamos pelo exemplo. Víamos homens cansados mas firmes. Víamos mulheres fortes na gestão da casa e da vida. Víamos uma comunidade que funcionava com base em esforço e responsabilidade.
Havia orgulho silencioso.
Orgulho na terra trabalhada.
Orgulho na casa construída.
Orgulho na família mantida.
Ninguém falava em “épocas históricas”. Falava-se em colheitas, em exames, em melhorias, em obras.
E talvez seja essa normalidade que mais tarde se tornou difícil de explicar a quem não a viveu.
Porque o que se perdeu não foi apenas propriedade ou posição social.
Foi continuidade.
Foi a expectativa natural de que o amanhã seria construção e não ruptura.
A Comunidade Antes da Ruptura não era perfeita. Mas era estruturada. E uma estrutura, quando cai de forma abrupta, deixa uma marca mais profunda do que uma que nunca existiu.
A Capela de São Cristóvão não estava isolada no morro.
Era reflexo daquele tecido humano.
E quando o tecido se rasgou, a capela ficou como testemunha física de uma vida que, durante algum tempo, pareceu estável e possível.
III. 1974–1975: A História Acelera
Até 1974, a vida na Cela seguia o seu ritmo próprio. As mudanças políticas que ocorriam em Lisboa eram distantes para muitos de nós. Falava-se delas com curiosidade, por vezes com apreensão, mas ainda como algo exterior ao quotidiano imediato.
A 25 de Abril de 1974, a Revolução em Portugal alterou profundamente o curso da história. O regime que governara durante décadas caiu, e com ele caiu também a arquitetura política que sustentava a presença portuguesa em África.
A palavra “descolonização” deixou de ser debate académico e tornou-se programa de ação.
Em Angola, três movimentos políticos principais disputavam legitimidade e influência: MPLA, FNLA e UNITA. O contexto internacional da Guerra Fria acrescentava uma dimensão geopolítica à realidade angolana, transformando o território num ponto estratégico num tabuleiro maior do que as fronteiras nacionais.
A 15 de Janeiro de 1975 foi assinado o Acordo do Alvor, que estabelecia um Governo de Transição e fixava a independência para 11 de Novembro de 1975. No papel, existia um plano. Na prática, a confiança entre as partes era frágil.
Ao longo de 1975, o processo de transição deteriorou-se rapidamente. A rivalidade entre movimentos intensificou-se. A autoridade administrativa fragmentou-se. Em várias regiões, a sensação de previsibilidade começou a desaparecer.
Para quem vivia no planalto da Cela, o que se sentiu primeiro não foi ideologia.
Foi incerteza.
Rumores tornaram-se frequentes. As conversas à mesa mudaram de tom. A preocupação instalou-se de forma discreta mas persistente. Decisões começaram a ser tomadas com base no “e se”.
E se a situação piorar?
E se houver confrontos?
E se for necessário partir?
Para muitos, a ruptura não aconteceu num único dia. Foi uma soma de sinais: desorganização institucional, falhas logísticas, receios crescentes, episódios de tensão.
Mas, em determinado momento de 1975, a perceção coletiva mudou.
O que parecia transitório começou a parecer estrutural.
Famílias começaram a preparar saídas. Algumas partiram cedo. Outras hesitaram, esperando estabilização. Algumas foram forçadas por circunstâncias que ultrapassavam a sua vontade.
A aceleração histórica não deu tempo à digestão emocional.
Aquilo que levara décadas a construir foi colocado em causa em meses.
É importante afirmar, com honestidade, que a história não é linear nem simples. O processo de independência angolana foi resultado de fatores complexos: luta armada anterior, contexto internacional, dinâmica interna entre movimentos, decisões políticas em Lisboa.
Mas para quem estava na Cela, a experiência foi concreta e pessoal.
A escola deixou de ser apenas escola.
O trabalho deixou de ser apenas trabalho.
A casa deixou de ser apenas casa.
Tudo passou a ser potencialmente provisório.
A Capela de São Cristóvão, concluída em 1974, tornou-se involuntariamente símbolo dessa transição abrupta.
Erguida num tempo de expectativa de continuidade, encontrou-se, meses depois, inserida num cenário de descontinuidade.
A História acelerou.
E quando a história acelera, não pede autorização às pessoas comuns.
Ela atravessa-as.
IV. A Capela que Permaneceu
Enquanto pessoas partiam, a capela ficou.
É uma frase simples, mas contém uma verdade profunda.
Em 1975, a instabilidade não era abstracta. Era concreta. Manifestava-se em malas feitas à pressa, despedidas contidas, decisões tomadas sob pressão. O que antes era previsível tornou-se incerto. O que era permanente tornou-se provisório.
Mas no alto do Morro do Wako, a Capela de São Cristóvão continuava erguida.
Não tinha voz.
Não tomava partido.
Não julgava.
Limitava-se a permanecer.
A pintura começou a perder o brilho. O interior ficou deserto. O altar deixou de receber flores. O eco dos cânticos deu lugar ao som do vento. Com o tempo, marcas apareceram nas paredes — sinais de abandono, talvez de desconhecimento da história daquele espaço.
Mas a estrutura resistiu.
A pedra não se move com a mesma rapidez que as circunstâncias humanas. A argamassa não reage à ansiedade colectiva. A arquitectura não sente medo.
Há uma lição silenciosa nisso.
Os homens são atravessados pela história.
As construções atravessam a história.
A capela tornou-se testemunha involuntária de uma geração que partiu e de outra que ficou. Viu o planalto mudar de ritmo. Viu o silêncio ocupar o lugar da celebração. Viu o tempo fazer o seu trabalho lento e constante.
E no entanto, não caiu.
Essa permanência f ísica não apaga a ruptura humana. Não compensa a perda de continuidade social. Não reconstitui automaticamente o tecido comunitário.
Mas cria um ponto fixo.
Um eixo.
Um marco que diz: “Aqui existiu algo.”
Quando regressei décadas depois, não encontrei a capela como a tinha deixado na memória. Encontrei-a marcada pelo tempo. Menos cuidada. Mais exposta.
E, no entanto, mais simbólica.
Percebi que a sua força já não estava na estética, mas na resistência.
A permanência da capela contrastava com a mobilidade forçada das pessoas. Ela ficara. Nós partíramos. Ela envelhecera no mesmo lugar. Nós envelhecêramos noutros continentes.
Mas havia uma ligação invisível.
A pedra permanecera.
A memória também.
Talvez seja essa a função inesperada de certos edifícios: tornar-se âncoras quando os homens são obrigados a navegar.
São Cristóvão é o padroeiro dos viajantes. A capela dedicada ao santo das travessias permaneceu imóvel enquanto milhares atravessavam fronteiras.
Esse contraste não é irónico.
É simbólico.
A instabilidade humana revelou a fragilidade das circunstâncias. A permanência física revelou que nem tudo se dissolve.
E ao subir novamente o Morro do Wako em 2009, percebi que aquela capela não era apenas testemunha do passado.
Era espelho.
Espelho daquilo que também em mim permanecera, apesar das travessias.
V. O Regresso — Janeiro de 2009
Trinta e cinco anos passaram entre a conclus ão da capela e o meu regresso ao Morro do Wako.
Durante esse tempo, a vida levou-me longe. Outros continentes. Outras responsabilidades. Outras paisagens. Construí família. Construí carreira. Construí estrutura. Mas o lugar onde tudo começou permaneceu guardado numa zona silenciosa da memória.
Em Janeiro de 2009, voltei.
A subida começou como sempre começara — pelo caminho de terra vermelha, irregular, marcado por pedras que o tempo não deslocou. O ar do planalto tinha uma qualidade própria. Seco, limpo, amplo. O horizonte abria-se à medida que subia, como se a paisagem me reconhecesse antes mesmo de eu reconhecer tudo nela.
Parei na fonte.
Inclinei-me e lavei o rosto com a água fresca que ali corria. A sensação foi imediata e física. A pele recorda antes da razão. A água tocou-me como já me tinha tocado em criança. Não era apenas frescura. Era continuidade.
Continuei a subida.
As flores selvagens surgiam ao longo do caminho, indiferentes à história humana. A natureza mantivera o seu ciclo. O morro não parecia ressentido. Apenas estava.
Quando cheguei ao topo, diante da Capela de São Cristóvão, parei.
Respirei fundo.
E nesse instante algo inesperado aconteceu.
Enchi os pulmões com aquele ar — o mesmo ar que respirara em menino — e senti um formigueiro nas mãos. Os dedos vibraram levemente, como se o corpo tivesse sido atravessado por uma corrente subtil. Uma sucessão rápida de imagens e memórias percorreu-me: corridas na terra, vozes conhecidas, celebrações, horizontes vistos com olhos de criança.
Não foi um momento de tristeza.
Não foi um momento de revolta.
Foi um momento de elevação.
A sensação não vinha de fora. Não foi fenómeno exterior. Foi integração interior.
O menino que ali subira tantas vezes.
O jovem que partira sem saber se regressaria.
O homem que voltava como pai, profissional e sobrevivente de muitas transições.
Todos estavam presentes naquele instante.
O tempo deixou de ser sequência e tornou-se simultaneidade.
Compreendi algo simples e profundo: a história pode deslocar-nos fisicamente, mas não consegue apagar a estrutura interior que se forma na infância.
O formigueiro nas mãos não foi medo. Foi reconhecimento. Como se o corpo dissesse aquilo que a mente ainda estava a organizar.
Respirei novamente.
E nessa segunda respiração já não havia surpresa. Havia consciência.
A capela estava marcada pelo tempo. Eu também. Mas nenhum de nós tinha colapsado.
Ali, naquele ponto alto do planalto da Cela, percebi que regressar não era voltar ao passado. Era reconciliar trajectórias.
Não voltei para recuperar o que foi.
Voltei para integrar o que sou.
E ao descer o morro nesse dia, não levei comigo nostalgia pesada.
Levei uma certeza serena:
As travessias moldam.
Mas não anulam.
E aquilo que se forma na altura em que o horizonte é visto pela primeira vez permanece como eixo invisível ao longo da vida.
VI. São Cristóvão e o Símbolo da Travessia
A capela no alto do Morro do Wako é dedicada a São Cristóvão, tradicionalmente reconhecido como o padroeiro dos viajantes.
Durante a infância, esse detalhe era apenas parte da liturgia. Sabíamos o nome, víamos a imagem do santo transportando o Menino ao ombro, ouvíamos a história. Mas não imaginávamos que a palavra “travessia” se tornaria parte concreta da nossa própria biografia.
Segundo a tradição cristã, São Cristóvão carregava viajantes através de um rio perigoso. Um dia, transportou uma criança que se revelou mais pesada a cada passo. No fim da travessia, a criança revelou ser Cristo, e o peso que sentira era o peso do mundo.
Independentemente da dimensão devocional de cada um, a metáfora é poderosa.
A travessia nunca é leve.
A responsabilidade nunca é superficial.
O caminho raramente é plano.
Em 1974, quando a capela foi concluída, ninguém pensava em travessias forçadas. Pensava-se em continuidade. Em estabilidade. Em crescimento. No entanto, poucos meses depois, milhares de vidas entraram numa condição de deslocação — física, emocional e histórica.
Partir de Angola não foi, para muitos, uma escolha ideológica. Foi uma decisão condicionada pelas circunstâncias. Uma travessia inesperada.
São Cristóvão tornou-se, retroactivamente, símbolo dessa passagem.
Não apenas da sa ída geográfica.
Mas da transição interior.
Travessia da segurança para a incerteza.
Travessia da infância para a maturidade precoce.
Travessia de uma identidade territorial para uma identidade reconstruída noutro contexto.
Quando subi o Morro do Wako em 2009 e parei diante da capela, percebi que o simbolismo estava ali desde o início, mesmo que eu só o entendesse décadas depois.
A capela dedicada ao santo dos viajantes permaneceu imóvel enquanto os viajantes partiam.
Essa imagem contém uma ironia tranquila, mas também uma verdade profunda: a travessia não elimina o ponto de partida. Ele continua a existir como referência.
Ao longo da vida, atravessei oceanos, culturas e sistemas. Construí trajeto profissional e familiar longe do planalto da Cela. Mas a estrutura interior formada naquele território acompanhou-me.
Talvez seja esse o verdadeiro significado de São Cristóvão na minha história.
Não alguém que impede a travessia.
Mas alguém que a sustenta.
A travessia não foi apenas perda. Foi também formação. Exigiu adaptação, disciplina, responsabilidade. Exigiu reconstrução.
E ao regressar, compreendi que o peso transportado ao longo dos anos — responsabilidades, decisões, desafios — não foi apenas fardo.
Foi formação de carácter.
A capela no Morro do Wako não é apenas memória arquitetónica. É símbolo de um percurso que começou ali e continuou para além das fronteiras visíveis.
E talvez, no fundo, cada um de nós carregue um pouco dessa imagem: atravessar águas instáveis, mantendo equilíbrio suficiente para não deixar cair aquilo que é essencial.
VII. O Que Não Foi Destruído
Quando uma ruptura histórica acontece, a tendência natural é olhar apenas para o que se perdeu.
Casas abandonadas.
Empresas encerradas.
Escolas esvaziadas.
Vizinhanças dispersas.
E sim, houve perda. Houve sofrimento. Houve vidas que nunca mais recuperaram o que tinham construído.
Mas a análise honesta não pode terminar aí.
Porque há algo que não foi destruído.
O carácter não se confisca.
A disciplina não se expropria.
A ética de trabalho não se nacionaliza.
A fé interior não depende de fronteiras políticas.
As gerações que viveram na Cela antes da ruptura eram marcadas por um código implícito: responsabilidade, esforço, contenção, compromisso com a família. Esses valores não estavam escritos em cartazes. Eram praticados diariamente.
Quando a história acelerou e a travessia se tornou inevitável, esses mesmos valores viajaram com as pessoas.
Não viajaram nas malas.
Viajaram na formação.
Ao longo dos anos, ao construir vida noutro continente, percebi que muito do que consegui estruturar — na família, na profissão, na liderança — tinha raízes naquele planalto.
A capacidade de trabalhar com método.
A resistência perante adversidade.
O respeito pela palavra dada.
A consciência de que o horizonte é sempre maior do que o problema imediato.
Nada disso nasceu no vazio.
Nasceu num ambiente onde o esforço era normal e o cumprimento era esperado.
É por isso que, ao regressar em 2009 e sentir aquele momento de integração no cimo do morro, compreendi algo fundamental:
A ruptura histórica foi real.
Mas não foi total.
Pode ter havido descontinuidade territorial.
Mas houve continuidade interior.
A herança invisível sobreviveu.
Ela manifesta-se na forma como se educam os filhos.
Na forma como se enfrenta o risco.
Na forma como se constrói, em vez de apenas criticar.
A Capela de São Cristóvão permaneceu de pé no morro.
Mas mais importante ainda: aquilo que ela representava — disciplina, fé, sentido de comunidade — permaneceu dentro de muitos de nós.
O que não foi destruído não aparece nas estatísticas.
Aparece nas trajetórias.
E talvez seja essa a resposta mais serena à ruptura: não negar o que aconteceu, mas demonstrar, pela vida vivida, que o essencial atravessou intacto.
VIII. Conclusão: Permanência Interior
Há regressos que não servem para recuperar o passado.
Servem para compreender o presente.
Quando desci o Morro do Wako naquele dia de Janeiro de 2009, percebi que não tinha voltado para medir perdas nem para reabrir feridas. Voltei para reconhecer continuidade.
A capela permanecia ali — marcada, envelhecida, mas erguida. Eu também permanecia — moldado pelas travessias, marcado pelo tempo, mas inteiro.
Essa foi a verdadeira revelação.
A história pode deslocar geografias.
Pode alterar estruturas políticas.
Pode interromper ciclos sociais.
Mas não tem poder absoluto sobre aquilo que se consolida na formação interior de uma pessoa.
A permanência não é teimosia.
É maturidade.
É a capacidade de atravessar mudanças profundas sem perder o eixo.
Para as novas gerações, que talvez leiam estas palavras sem terem vivido aquela transição, a mensagem não é de nostalgia nem de confronto. É de consciência.
Os lugares importam.
As raízes importam.
A memória importa.
Mas o mais importante é o que fazemos com essa herança.
Podemos transformar ruptura em amargura.
Ou podemos transformá-la em responsabilidade.
O Morro do Wako ensinou-me algo que só compreendi décadas depois: o horizonte é amplo, mas exige subida. A vista recompensa o esforço, mas não elimina o caminho percorrido.
A Capela de São Cristóvão continua ali, silenciosa.
Não exige nada.
Não acusa ninguém.
Não reclama passado.
Permanece.
E talvez seja essa a sua lição maior.
A verdadeira permanência não está nas paredes.
Está na consciência.
E enquanto houver quem suba aquele morro, respire fundo e reconheça a sua própria história com serenidade, o que foi vivido não terá sido em vão.













