Explorando a Rica Cultura de Angola e Portugal

A Dupla Realidade em Angola: Luanda de Vidro e as Cubatas de Adobe
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Introdução: Angola em Duas Dimensões
Angola é hoje um país de contrastes extremos e visíveis. De um lado, a Marginal de Luanda iluminada, torres de vidro, grandes avenidas, projectos imobiliários de luxo e sinais exteriores de modernidade. Do outro, milhões de cidadãos vivem ainda em cubatas e casas de adobe, com telhados de chapa ondulada, chão batido, sem acesso regular a água potável, saneamento, electricidade, saúde ou educação de qualidade.
Estas duas imagens não representam exceções nem momentos isolados. Representam uma realidade estrutural que define o país. Este artigo procura analisar esse contraste de forma histórica, social e política, questionando a narrativa cómoda que explica tudo pelo passado colonial e ignorando as responsabilidades do presente.
O Mito da Exclusiva Responsabilidade Colonial
Durante décadas, a pobreza e a desigualdade em Angola têm sido justificadas quase exclusivamente pelo legado colonial. É inegável que a colonização deixou marcas profundas, assimetrias regionais e exclusão social. No entanto, atribuir ao colonialismo toda a responsabilidade pela realidade actual é intelectualmente insuficiente e politicamente conveniente.
Angola vive em paz formal desde 2002. Desde então, beneficiou de receitas petrolíferas extraordinárias, algumas das maiores da sua história. Houve tempo, recursos e oportunidade para construir um Estado funcional capaz de garantir serviços básicos à maioria da população.
A permanência de pobreza extrema, especialmente no meio rural, não pode ser explicada apenas pelo passado. Ela resulta sobretudo de decisões políticas tomadas no presente, da concentração de investimento em sectores e zonas específicas e da negligência sistemática das necessidades fundamentais da maioria da população.
Luanda: A Cidade de Vidro que Não Representa o País
Luanda transformou-se numa cidade vitrine. Fotografias da Marginal, dos edifícios altos e dos novos empreendimentos circulam pelo mundo como símbolos de progresso. No entanto, esta imagem representa apenas uma pequena parcela da realidade urbana.
A urbanização acelerada ocorreu de forma desordenada, acompanhada pela expansão dos musseques, onde vivem centenas de milhares de pessoas sem acesso adequado a serviços públicos. Em muitos bairros, a água não chega por canalização e é comprada informalmente a preços elevados. O saneamento é inexistente e a electricidade irregular ou ausente.
Este contraste cria uma desigualdade funcional: quem menos tem paga mais pelos serviços básicos, enquanto quem vive nas zonas formais beneficia de infra-estruturas subsidiadas e estáveis. Não se trata apenas de pobreza urbana, mas de uma falha estrutural do modelo de cidade e de Estado.
A Angola Rural Invisível: Onde Vive a Maioria
Fora das grandes cidades, a realidade é ainda mais dura. Grande parte da população angolana vive em zonas rurais, em habitações construídas com adobe e materiais locais, muitas vezes sem qualquer ligação a redes públicas de água, energia ou saneamento.
Relatórios internacionais demonstram que a pobreza em Angola é predominantemente rural. Em várias províncias, mais de metade da população vive abaixo da linha de pobreza. A ausência de estradas, escolas funcionais, postos de saúde e apoio à produção agrícola mantém comunidades inteiras num ciclo de sobrevivência.
As cubatas não são símbolos culturais românticos. São o reflexo de abandono estrutural. São a prova de que o contrato social nunca chegou a muitas zonas do país.
Educação em Angola: Promessa Legal e Realidade Prática
A legislação angolana estabelece a educação primária como gratuita e obrigatória. No entanto, a realidade no terreno é frequentemente diferente. Falta de escolas, salas sobrelotadas, ausência de materiais, carência de professores e cobranças formais ou informais tornam o acesso à educação desigual.
Para famílias em situação de pobreza, mesmo pequenas contribuições exigidas pelas escolas tornam-se barreiras intransponíveis. Crianças ficam fora do sistema não por falta de vontade, mas por falta de meios.
Quando a educação deixa de ser um direito garantido e passa a depender da capacidade económica da família, a mobilidade social torna-se impossível e a pobreza reproduz-se de geração em geração.
Um Modelo de Desenvolvimento que Exclui
O problema central não é apenas a pobreza, mas o modelo de desenvolvimento adoptado. Um modelo que privilegia grandes projectos, centros urbanos específicos e sectores de rendimento rápido, enquanto ignora investimentos básicos com impacto directo na vida da maioria.
Água potável, saneamento, saúde primária, escolas funcionais e energia não deveriam ser privilégios. São a base mínima de qualquer sociedade que pretende estabilidade e coesão.
A exclusão sistemática destas prioridades cria migração interna, crescimento desordenado das cidades, informalidade económica e ressentimento social profundo.
Paz Sem Justiça Social é Sempre Provisória
A paz não se mede apenas pela ausência de guerra. Mede-se pela confiança dos cidadãos no Estado e pela perceção de que existe um futuro possível para os seus filhos.
Quando milhões vivem sem serviços básicos, sem oportunidades e sem esperança de mobilidade social, a paz torna-se frágil. Pode durar anos, mas permanece instável. A história demonstra que desigualdade extrema corrói silenciosamente qualquer sociedade.
O Caminho Necessário: Três Compromissos Fundamentais
Se houver vontade real de mudança, três prioridades são incontornáveis:
Primeiro, garantir acesso universal à água potável e saneamento básico, sobretudo nas zonas rurais e periféricas.
Segundo, assegurar que a educação seja verdadeiramente gratuita, fiscalizada e acompanhada, protegendo as famílias mais vulneráveis.
Terceiro, investir seriamente no desenvolvimento rural, com infra-estruturas, saúde, educação e apoio à produção agrícola.
Sem estes pilares, qualquer discurso sobre desenvolvimento permanecerá vazio.
Conclusão: Entre a Marginal e a Cubata
As duas imagens que enquadram este texto não são duas Angolas diferentes. São a mesma Angola, vista de lugares sociais distintos.
Enquanto a maioria continuar a viver na geografia da chapa e do adobe, não haverá paz duradoura nem justiça real. Um Estado que aceita desigualdade estrutural aceita também instabilidade estrutural.
A Marginal pode brilhar à noite. Mas o futuro do país decide-se onde a luz ainda não chegou.











