A GUERRA QUE NÃO TERMINOU EM 1945
- elmirochaves

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Como Portugal começou a ser desmanteladoantes do primeiro tiro
“A Segunda Guerra Mundial acabou oficialmente em 1945. Para nós, em Angola, ela apenas mudou de nome.”
JOÃO ELMIRO DA ROCHA CHAVES
Luso-Angolano, sobrevivente da Guerra Fria e filho do Waku-Kungo

Chamaram-lhe Guerra Fria porque os Estados Unidos e a União Soviética evitaram enfrentar-se diretamente nos campos de batalha.
Mas ela só foi “fria” nos gabinetes de Washington e Moscovo.
Em África, na Ásia e na América Latina, queimou cidades, dividiu povos, armou irmãos contra irmãos, derrubou governos e condenou milhões de seres humanos ao exílio, à fome, à prisão e à morte.
Para quem viveu em Angola, Moçambique, Guiné, Congo, Vietname ou Coreia, aquela guerra nunca foi fria. Foi a continuação da Segunda Guerra Mundial por outros meios: menos tanques atravessando capitais europeias, mas mais propaganda, infiltração, golpes de Estado, movimentos armados e guerras travadas por procuração.
E foi nesse novo tabuleiro mundial que começou a ser decidido o destino do Portugal pluricontinental — muito antes de 1961, muito antes do primeiro tiro da chamada Guerra Colonial e muito antes do 25 de Abril.
O novo mundo que nasceu durante a guerra
Em agosto de 1941, quando a Segunda Guerra Mundial ainda devastava a Europa, Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill anunciaram a Carta do Atlântico. O documento defendia o direito dos povos a escolherem a forma de governo sob a qual desejavam viver e rejeitava alterações territoriais contrárias à vontade das populações. Embora Churchill não desejasse aplicar imediatamente esses princípios ao Império Britânico, as palavras estavam lançadas e seriam usadas por movimentos independentistas em todo o mundo.
Fonte documental: Carta do Atlântico — texto oficial da NATO
A criação das Nações Unidas, em 1945, transformou gradualmente essa linguagem numa poderosa arma diplomática contra os impérios europeus.
Portugal terminou a guerra formalmente neutral, mas entrou no pós-guerra carregando uma contradição perigosa: era uma nação pequena, governada por um regime autoritário, tentando conservar territórios espalhados pelo mundo num sistema internacional cada vez mais hostil à permanência dos impérios europeus.
A partir de então, o destino português passou a ser condicionado por três grandes potências que disputavam o futuro do planeta:
· Os Estados Unidos, interessados em substituir a antiga influência europeia, conquistar credibilidade junto das novas nações africanas e impedir que estas caíssem na órbita soviética;
· A União Soviética, empenhada em financiar, formar e armar movimentos revolucionários de inspiração marxista;
· A China comunista, que procurava afirmar-se como líder revolucionária do chamado Terceiro Mundo e disputar influência com Moscovo.
Não existiu necessariamente uma reunião secreta em que as três potências assinaram um plano comum para destruir o Império Português. A realidade foi mais complexa — e talvez mais eficaz: três interesses rivais convergiram no mesmo resultado.
Cada potência queria afastar Portugal por razões diferentes. E cada uma pretendia ocupar, direta ou indiretamente, o espaço que Portugal deixasse para trás.
Portugal era aliado — mas também era um obstáculo
Portugal tornou-se membro fundador da NATO em 1949. A posição estratégica dos Açores tornava o país valioso para os Estados Unidos e para a defesa do Atlântico.
Contudo, Washington não via as províncias ultramarinas portuguesas com os mesmos olhos de Lisboa.
Para Portugal, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé, Goa, Macau e Timor constituíam partes integrantes da nação. Para a nova ordem internacional, eram territórios que deveriam caminhar para a autodeterminação e para a independência.
Quando Portugal foi admitido nas Nações Unidas, em 1955, recusou-se a reconhecer as suas províncias ultramarinas como territórios não autónomos. Em dezembro de 1960, a
Assembleia Geral aprovou a Resolução 1542, rejeitando essa posição portuguesa. Um dia antes, a Resolução 1514 proclamara o direito dos povos sob administração colonial à independência.
Fonte documental: Declaração das Nações Unidas — Resolução 1514
Portugal encontrava-se, assim, dentro da aliança ocidental, mas progressivamente isolado dentro da ordem política criada pelos próprios aliados.
Os Açores protegiam Portugal de uma ruptura completa com Washington, mas não garantiam a defesa do Ultramar. Para os americanos, Portugal era simultaneamente um aliado estratégico na Europa e um problema político em África.
Washington: aliado em público, pressão nos bastidores
A política norte-americana tornou-se particularmente agressiva durante a presidência de John F. Kennedy.
Documentos hoje públicos do Departamento de Estado norte-americano mostram que a administração Kennedy pretendia pressionar Portugal através das Nações Unidas, da NATO e de contactos diplomáticos para aceitar reformas e uma transição para a autodeterminação.
Uma diretiva de março de 1962 determinava que os Estados Unidos deveriam impedir que equipamento militar fornecido a Portugal para fins da NATO fosse utilizado em África. O mesmo documento defendia pressão internacional sobre Lisboa, apoio educativo a angolanos no estrangeiro e uma transição política destinada à futura autodeterminação de Angola. Ao mesmo tempo, mandava executar essa política discretamente, para não colocar em perigo os direitos norte-americanos sobre a Base das Lajes.
Fonte documental: Diretiva do Departamento de Estado, março de 1962
Ainda mais revelador é um memorando secreto de junho de 1961. Nele, o secretário de Estado Dean Rusk ordenava o fim dos pagamentos mensais efetuados por uma agência oficial norte-americana a Holden Roberto, dirigente do movimento que viria a constituir a FNLA. A preocupação não era a inexistência dos contactos, mas a possibilidade de Washington ser publicamente acusado de apoiar atos violentos contra homens, mulheres e crianças em Angola.
Fonte documental: Memorando de Dean Rusk sobre Holden Roberto
Isto não significa que os Estados Unidos fossem responsáveis por tudo o que aconteceu em Angola. Significa, porém, que não eram observadores inocentes.
Washington procurava fabricar uma alternativa africana que fosse simultaneamente anticolonial e anticomunista. Não queria necessariamente entregar Angola a Moscovo, mas também não queria permitir que Portugal conservasse indefinidamente o território.
Moscovo: ideologia, formação e armamento
A União Soviética adotou uma estratégia mais direta.
A partir do final da década de 1950 e do início da década de 1960, o bloco soviético começou a apoiar o MPLA, o PAIGC e a FRELIMO. O apoio não se limitou às armas: incluiu treino militar, formação política, bolsas de estudo, propaganda, preparação técnica e redes diplomáticas.
Estudantes das províncias portuguesas foram levados para universidades e centros de formação da União Soviética e de outros países do bloco de Leste. Pretendia-se formar não apenas guerrilheiros, mas também os futuros quadros políticos, diplomáticos e administrativos dos regimes que substituiriam Portugal.
A guerra militar foi, portanto, precedida por uma guerra sobre a mente, a memória e a identidade.
Antes de se conquistar o território, preparavam-se as elites destinadas a governá-lo.
Antes de se derrubar a bandeira, destruía-se a legitimidade histórica de quem a levantara.
Pequim: a terceira força revolucionária
A China comunista também entrou na disputa africana.
Pequim apoiou movimentos de libertação, proporcionou treino paramilitar e forneceu equipamento. Porém, a rivalidade entre a China e a União Soviética fez com que os chineses nem sempre apoiassem os mesmos movimentos escolhidos por Moscovo.
Em Angola, a China aproximou-se em momentos diferentes do MPLA, da FNLA e, posteriormente, da UNITA. Em Moçambique e noutras regiões africanas, procurou construir a sua própria rede de influência revolucionária.
Documentos de inteligência norte-americanos da época reconheciam a União Soviética, a China e Cuba como importantes fornecedores de equipamento e formação paramilitar aos movimentos armados da África Austral.
Fonte documental: Documento histórico desclassificado pela CIA
Isto revela uma realidade frequentemente apagada das narrativas simplificadas: os movimentos nacionalistas africanos possuíam aspirações próprias e legítimas, mas foram também transformados em peças de uma disputa mundial.
A independência era a causa proclamada. A influência geopolítica era o prémio procurado pelas potências.
O erro fatal de Salazar
Reconhecer a intervenção externa não absolve o Estado Novo dos seus próprios erros.
Salazar compreendeu o valor territorial, económico e histórico do Ultramar, mas não compreendeu suficientemente a velocidade com que o mundo estava a mudar.
Lisboa poderia ter iniciado, ainda nas décadas de 1940 e 1950, uma transformação gradual: cidadania verdadeiramente comum, representação política efetiva, autonomia administrativa, educação generalizada, formação acelerada de quadros africanos e uma federação pluricontinental negociada.
Em vez disso, o regime confiou excessivamente na unidade jurídica declarada pela Constituição e insuficientemente na construção de uma unidade política vivida por todos.
O Estatuto dos Indígenas, por exemplo, só foi abolido em 1961. Durante demasiado tempo, Portugal afirmou que todos os territórios formavam uma única nação, enquanto mantinha diferenças legais e sociais que os adversários podiam explorar.
O regime também limitava a liberdade de expressão e o debate político na própria metrópole. Como consequência, os portugueses não foram preparados para discutir abertamente alternativas ao império, modelos federais ou formas graduais de autodeterminação.
Salazar fechou demasiadas portas. Quando finalmente se tornaram inevitáveis, já não puderam ser abertas com serenidade — foram arrombadas.
O fim do império talvez se tivesse tornado historicamente inevitável. Mas a violência, o abandono e o caos em que esse fim ocorreu não eram inevitáveis.
Quando chegaram as balas, a guerra já estava avançada
Em 1961, a longa preparação diplomática, ideológica e clandestina transformou-se em guerra aberta.
Em Angola, os ataques de 1961 desencadearam uma resposta militar portuguesa e deram início a treze anos de combate. A guerra estender-se-ia à Guiné e a Moçambique.
No mesmo ano, a Índia invadiu Goa, Damão e Diu. Portugal apresentou queixa ao Conselho de Segurança. Uma proposta que exigia o cessar-fogo e a retirada das forças indianas recebeu sete votos favoráveis, mas foi bloqueada pelo veto da União Soviética.
Fonte documental: Departamento de Estado dos EUA — crise de Goa
A mensagem para Lisboa era inequívoca: a soberania portuguesa já não seria decidida apenas pelos portugueses nem defendida automaticamente pelos seus aliados.
Portugal combateu militarmente, mas não conseguiu construir uma solução política reconhecida internacionalmente.
Durante treze anos, uma geração inteira foi mobilizada. Milhares de jovens partiram para África; outros fugiram do recrutamento e emigraram. Famílias foram separadas, recursos foram desviados e as Forças Armadas tornaram-se progressivamente exaustas e politizadas.
Um estudo económico calcula que, entre 1961 e 1974, as despesas extraordinárias diretamente relacionadas com a guerra representaram, em média, 22% da despesa do Estado português e cerca de 3,1% do produto interno bruto.
Fonte documental: Cambridge University Press — custos financeiros da guerra
Portugal não caiu porque lhe faltassem soldados valentes. Caiu porque nenhum exército pode compensar indefinidamente a ausência de uma estratégia política adaptada ao seu tempo.
De treze anos de imobilidade a poucos meses de abandono
O 25 de Abril de 1974 terminou com o Estado Novo e abriu as portas à democracia. Essa conquista não deve ser negada.
Mas a queda do regime também entregou o processo ultramarino a um Estado enfraquecido, politicamente dividido e infiltrado pelas próprias ideologias que disputavam Angola, Moçambique e a Guiné.
Portugal passou de uma recusa absoluta de negociar para uma descolonização executada com uma precipitação devastadora.
Não houve tempo suficiente para proteger as populações, assegurar direitos de cidadania, preservar propriedades legítimas, organizar forças de segurança comuns ou garantir uma transição capaz de impedir que os movimentos rivais transformassem a independência numa guerra civil.
Em Angola, o Acordo de Alvor estabeleceu um governo de transição composto por Portugal, MPLA, FNLA e UNITA. Antes mesmo da independência formal, esse acordo já estava destruído pelas armas.
As potências estrangeiras que durante anos alimentaram movimentos rivais não desapareceram. Pelo contrário: intensificaram a intervenção.
E aqueles que haviam construído casas, escolas, hospitais, estradas, fazendas, oficinas, igrejas e pequenas empresas foram deixados entre exércitos, ideologias e promessas quebradas.
Mais de meio milhão de pessoas abandonaram as antigas províncias portuguesas e dirigiram-se sobretudo para Portugal. Foram chamadas “retornados”, mesmo quando muitas tinham nascido em África e nunca haviam vivido na metrópole.
Fonte documental: Oxford Academic — migrações da descolonização
Eu não conheço esta história apenas pelos livros
No dia 6 de agosto de 1975, eu tinha dezasseis anos.
Um ataque junto da nossa casa e do estabelecimento da família, no Waku-Kungo, obrigou-nos a partir. Seguimos num comboio até Nova Lisboa, onde permanecemos durante dezasseis dias. Depois veio o voo noturno, passando por Luanda, até Lisboa.
Deixámos para trás a nossa casa, o nosso trabalho, os nossos amigos, a igreja onde eu tinha servido como sacristão e o chão onde estavam enterradas as memórias da nossa infância.
Não éramos ministros. Não éramos generais. Não comandávamos exércitos nem escrevíamos resoluções nas Nações Unidas.
Éramos uma família.
É por isso que não posso aceitar uma história reduzida a slogans, na qual todos os portugueses em África aparecem como culpados e todos os movimentos armados como libertadores imaculados.
Também não posso aceitar a versão contrária, que atribui toda a responsabilidade aos estrangeiros e recusa reconhecer os erros, desigualdades e oportunidades perdidas pelo regime português.
A verdade é mais difícil — mas também mais digna.
Portugal não foi destruído num único dia
A desagregação do Portugal pluricontinental não começou em 1961 e não foi criada pelo 25 de Abril.
Começou quando a Segunda Guerra Mundial terminou sem verdadeiramente terminar.
Começou quando as antigas alianças foram substituídas por interesses geopolíticos.
Começou quando Washington decidiu que a sobrevivência dos impérios europeus prejudicava a sua influência no novo mundo africano.
Começou quando Moscovo transformou a independência numa oportunidade para expandir regimes aliados.
Começou quando Pequim armou movimentos concorrentes para disputar espaço com a União Soviética.
Começou quando as Nações Unidas julgaram a presença portuguesa sem garantir que a sua retirada produziria liberdade, paz ou democracia.
Mas começou também quando Lisboa confundiu firmeza com imobilidade; quando adiou reformas fundamentais; quando impediu o debate político; e quando acreditou que a coragem dos soldados poderia deter indefinidamente o movimento da História.
Washington forneceu pressão política.
Moscovo forneceu ideologia, formação e armamento.
Pequim forneceu apoio revolucionário alternativo.
Lisboa forneceu a rigidez.E, no fim, os dirigentes de 1974 e 1975 forneceram a precipitação.
O resultado foi o desaparecimento de um mundo, o deslocamento de centenas de milhares de pessoas e o nascimento de guerras civis cujas vítimas seriam, na sua esmagadora maioria, africanas.
Portugal sobreviveu. Tornou-se democrático, europeu e moderno em muitos aspetos. Mas perdeu território, influência, comunidades e uma parte da sua memória coletiva.
O mais grave não foi apenas perder o império.
Foi permitir que a história daqueles que lá viveram, trabalharam, amaram e sofreram fosse reduzida a uma palavra — “retornados” — e depois empurrada para o silên
cio.
Um país começa a ser destruído antes de cair a primeira bomba.
Começa quando forças externas escrevem o seu futuro, quando os seus governantes deixam de compreender o tempo e quando o seu povo já não consegue falar honestamente sobre o passado.
A Segunda Guerra Mundial acabou oficialmente em 1945. Para nós, em Angola, ela apenas mudou de nome. E, trinta anos depois, chegou finalmente à nossa porta.
João Elmiro da Rocha Chaves
Luso-Angolano, sobrevivente da Guerra Fria e filho do Waku-Kungo




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