RETORNADOS OU OS RESTOS DO IMPÉRIO?
- elmirochaves

- há 2 dias
- 13 min de leitura
Retornado para onde? Memória, exílio e identidade de um filho do Waku-Kungo
Por João Elmiro da Rocha Chaves — Mákálé
Há documentários que observamos à distância, como quem contempla uma página encerrada da História.
E há outros que nos obrigam a entrar novamente dentro dela.
Retornados ou os Restos do Império, documentário realizado por Leandro Ferreira, a partir de uma ideia original de Dulce Cardoso e Luís Lopes, pertence, para mim, à segunda categoria. Produzido em co-produção pela Continental Filmes e RTP, procura recuperar os testemunhos pessoais de homens e mulheres que deixaram sobretudo Angola e Moçambique durante a descolonização portuguesa e tiveram depois de reconstruir as suas vidas em Portugal. A própria RTP reconhece que cada história foi diferente e que muitas das emoções e sequelas daquele processo nunca desapareceram completamente.
Assisti ao documentário como homem de 67 anos.
Mas, em muitos momentos, quem estava diante do ecrã era novamente o jovem de 16 anos que, numa madrugada de Agosto de 1975, ouviu as armas e percebeu que o mundo da sua infância tinha terminado.
Porque eu também fiz parte daquele êxodo.
Mas há uma palavra que, depois de mais de meio século, continuo a interrogar:
retornado.
Retornado para onde?
I — NÃO REGRESSEI. PARTI.
Nasci a 13 de Fevereiro de 1959 no Hospital da Cela, em Kissanga Kungo, Angola.
Cresci em Santa Comba, hoje Waku-Kungo, no Kwanza-Sul.
Ali estavam as minhas primeiras memórias.
Ali aprendi a andar, a falar, a rezar, a trabalhar, a brincar, a reconhecer as estações do ano africano, o cheiro da terra depois da chuva e as vozes das pessoas que faziam parte da nossa comunidade.
Ali fui sacristão e menino do altar na Igreja de Nossa Senhora da Assunção.
Ali estudei.
Ali conheci os meus primeiros amigos.
Ali estava a loja do meu pai.
E ali comecei, ainda criança, talvez com oito anos, a trabalhar atrás de um balcão que acabaria por se transformar numa das minhas primeiras escolas sobre a humanidade.
A loja vendia tecidos e mercadorias de uso quotidiano. Entravam portugueses, africanos, trabalhadores, agricultores, famílias, velhos, jovens e crianças.
Muitos dos nossos clientes eram Ngoya.
Eu ouvia aquela língua todos os dias.
Não compreendia tudo, mas aprendia.
Certas palavras ficaram guardadas num lugar da memória onde cinquenta anos não conseguiram chegar.
É também por isso que, hoje, continuo a procurar recuperar a língua Ngoya da minha infância.
Não como académico que observa uma cultura à distância.
Mas como alguém que ainda reconhece na sonoridade dessas palavras os rostos das pessoas que entravam na loja do seu pai.
Ngoya yetu, identidade yetu.
A língua de uma terra também pode transformar-se em memória de pertença.
Por isso, quando em 1975 me chamaram “retornado”, alguma coisa dentro de mim nunca aceitou completamente a palavra.
Eu conhecia Portugal através da família, da língua, da História, da cultura e das minhas origens.
Mas nunca tinha vivido em Portugal.
A minha casa era Angola.
Assim, eu não estava a regressar.
Eu estava a partir.
Esta diferença semântica pode parecer pequena.
Para quem viveu aquilo, é enorme.
II — A CELA QUE VIVE DENTRO DE MIM
A memória tem a capacidade extraordinária de conservar detalhes que a História oficial frequentemente perde.
Quando recordo a Cela, não começo por mapas políticos.
Vejo pessoas.
Vejo o movimento da loja.
Vejo os campos.
Vejo as camionetas.
Vejo a igreja.
Vejo o Morro do Waku.
Vejo agricultores levando os produtos das lavras.
Recordo o trabalho associado à Empresa de Laticínios de Angola, a actividade agrícola que sustentava grande parte da região, as infra-estruturas que iam sendo erguidas e a sensação, própria de uma criança e depois de um adolescente, de viver numa comunidade ainda em construção.
O meu pai fazia parte daquela geração de homens que tinha ajudado a erguer a Cela.
Transportou materiais.
Transportou areia.
Transportou tijolos.
Transportou granito retirado do Morro do Kungo para construções da região.
A nossa família não observava aquela terra de fora.
Trabalhava nela.
Vivia nela.
Dependia dela.
Amava-a.
Por isso, quando hoje se reduz a vida de centenas de milhares de pessoas a uma simples categoria — “colonos”, “retornados”, “restos do império” — sinto que desaparece uma dimensão indispensável da História:
a dimensão humana.
As pessoas não acordavam todas as manhãs pensando no império.
Acordavam pensando na família, no trabalho, nas contas, nas lavras, nos filhos, na escola, na doença, no casamento, na chuva e no amanhã.
É assim que a vida real acontece.
III — MAS A MINHA MEMÓRIA NÃO É TODA A HISTÓRIA
Dizer isto exige também uma responsabilidade.
A Angola que eu recordo é a Angola que eu vivi.
Não devo, nem quero, transformar a minha experiência individual numa declaração de que todos os angolanos viveram a mesma realidade.
Não viveram.
A memória de uma criança luso-angolana do Waku-Kungo não substitui a memória de uma família africana submetida a desigualdades, discriminações ou às consequências da guerra.
Havia injustiças.
Havia diferenças sociais e raciais.
Havia um sistema colonial cuja legitimidade era profundamente contestada pelos movimentos nacionalistas africanos.
E existia uma guerra que começara muito antes de 1975.
Reconhecer essas realidades não diminui aquilo que vivi.
Pelo contrário.
Dá-lhe honestidade.
Não precisamos de destruir uma memória para validar outra.
Podemos reconhecer o sofrimento provocado pelo colonialismo e, simultaneamente, reconhecer o sofrimento provocado pela guerra, pela descolonização caótica e pelo deslocamento de populações.
A História adulta deve conseguir comportar mais do que uma dor.
IV — 1975: QUANDO O ACORDO NO PAPEL ENCONTROU A GUERRA NO TERRENO
Em 15 de Janeiro de 1975 foi assinado o Acordo do Alvor entre o Estado Português, a FNLA, o MPLA e a UNITA.
O acordo reconhecia o direito de Angola à independência, estabelecia um Governo de Transição, previa eleições para uma Assembleia Constituinte e fixava 11 de Novembro de 1975 como data para a independência.
No papel havia um caminho.
No terreno, a realidade rapidamente se tornou muito mais difícil.
Os três movimentos que deveriam partilhar a transição passaram a disputar militarmente o controlo do território, enquanto Angola se inseria cada vez mais no enorme tabuleiro geopolítico da Guerra Fria.
Para quem hoje estuda aqueles acontecimentos, existem documentos, tratados, telegramas, arquivos diplomáticos, mapas militares e análises estratégicas.
Para mim, existe também outra fonte histórica:
a memória de estar lá.
Eu não conheci o colapso do processo apenas através dos livros.
Ouvi-o.
Vi-o.
Senti-o.
V — 6 DE AGOSTO DE 1975
Há datas que pertencem ao calendário.
E há datas que passam a viver dentro de uma pessoa.
Para mim, uma delas é:
6 de Agosto de 1975.
Nas primeiras horas daquela manhã, a violência chegou directamente à nossa comunidade.
O som das armas transformou-se numa mensagem impossível de ignorar.
Era preciso partir.
Não na semana seguinte.
Não quando fosse conveniente.
Não depois de vender a casa ou organizar os bens.
Naquele momento.
O que levamos quando percebemos que talvez nunca regressemos?
A resposta é simples:
aquilo que cabe.
O resto fica.
Fica a casa.
Ficam os móveis.
Ficam objectos acumulados durante uma vida.
Ficam fotografias.
Ficam ferramentas.
Fica o lugar onde nos sentávamos.
Fica a árvore que conhecíamos desde criança.
Fica a loja.
Ficam as ruas.
Ficam os mortos nos cemitérios.
Ficam perguntas que ninguém consegue responder.
A minha família deixou Santa Comba e integrou uma coluna em direcção a Nova Lisboa, hoje Huambo.
Ali permaneceríamos aproximadamente dezasseis dias.
Dezasseis dias entre uma vida que tinha acabado e outra que ainda não existia.
Depois veio um voo nocturno.
Nova Lisboa.
Luanda.
Lisboa.
Mais tarde, a ilha Terceira, nos Açores.
E exactamente um ano depois da nossa saída de Angola, em 6 de Agosto de 1976, chegámos aos Estados Unidos.
Los Angeles.
Depois San Jose, Califórnia.
Começava outra vida.
Mas ninguém atravessa continentes sem transportar consigo o lugar de onde veio.
VI — A PONTE AÉREA E AS VIDAS DENTRO DOS AVIÕES
A nossa família era apenas uma entre centenas de milhares.
Os números exactos continuam a ser debatidos. Estudos académicos situam entre aproximadamente 500 mil e 800 mil o número de pessoas que abandonaram as antigas colónias portuguesas no contexto da descolonização entre 1974 e 1979. Os Censos portugueses de 1981 registaram 471.427 pessoas provenientes das antigas colónias, das quais 290.504 tinham vindo de Angola, embora esses dados não representem necessariamente toda a população deslocada.
A dimensão da crise pode ainda ser medida pela própria resposta do Estado português.
O Arquivo Histórico da Presidência da República conserva documentação sobre a chamada ponte aérea Angola-Portugal, organizada entre Julho e Novembro de 1975 com aviões da TAP e aeronaves fretadas ou cedidas por governos estrangeiros para evacuar cidadãos de Angola.
Em Outubro daquele ano, perante aquilo que o próprio Governo português descreveu como um “afluxo massivo”, foi criada uma Secretaria de Estado dos Retornados para enfrentar a necessidade de integração daquela população.
Mas cada número esconde uma biografia.
500 mil.
600 mil.
800 mil.
Parece uma estatística.
Até imaginarmos 500 mil cozinhas abandonadas.
500 mil histórias familiares.
500 mil conjuntos de fotografias.
500 mil geografias emocionais partidas.
É por isso que os testemunhos individuais são tão importantes.
A estatística mede o êxodo.
A memória explica o que o êxodo fez às pessoas.
VII — “RETORNADO”: UMA PALAVRA QUE NÃO SERVIA A TODOS
A investigação sobre aquele período mostra também que “retornado” não foi uma palavra socialmente neutra.
A historiadora e antropóloga Elsa Peralta estudou precisamente os processos de identidade, desidentificação e ocultação vividos por essa população e assinala a carga pejorativa que a expressão adquiriu na sociedade portuguesa.
Além disso, aqueles que chegaram a Portugal não constituíam uma população uniforme.
Havia brancos nascidos em Portugal.
Brancos nascidos em África.
Mestiços.
Negros.
Militares.
Funcionários.
Profissionais.
Agricultores.
Comerciantes.
Trabalhadores.
Famílias com várias gerações nascidas em África.
Cada um trazia uma história diferente.
Daí a pergunta que o documentário provoca em mim:
quando chamamos “retornado” a alguém, estamos a descrever o seu percurso ou simplesmente a impor-lhe uma categoria criada por quem estava do outro lado da chegada?
Para muitos, Portugal era efectivamente a terra de regresso.
Para outros, não.
Para mim, não era.
Portugal fazia parte das minhas raízes.
Angola fazia parte da minha experiência.
Há uma diferença.
VIII — “OS RESTOS DO IMPÉRIO”?
A segunda parte do título talvez seja ainda mais provocadora:
os restos do império.
Compreendo a intenção histórica da expressão.
Um império terminara.
Com o seu desaparecimento ficaram populações deslocadas, estruturas desfeitas, economias transformadas e identidades que já não encaixavam facilmente nas novas fronteiras políticas.
Mas quando aplicamos a expressão às pessoas, algo me incomoda.
Um ser humano não é um resto.
Uma criança não é um resto.
Uma mãe tentando proteger os filhos não é um resto.
Um agricultor que perde a terra não é um resto.
Uma família carregando malas para um aeroporto não é um resto.
É possível sermos consequências humanas do fim de um império.
Mas não somos destroços históricos.
Somos pessoas.
E talvez esta distinção pareça pequena apenas para quem nunca perdeu uma terra.
IX — NÃO TENHO SAUDADES DE UM IMPÉRIO
Esta talvez seja a frase mais importante que posso escrever.
Eu não tenho saudades de um império.
Tenho saudades de Angola.
Tenho saudades do Waku-Kungo.
Tenho saudades da minha infância.
Tenho saudades das pessoas que conheci.
Tenho saudades da Igreja de Nossa Senhora da Assunção.
Tenho saudades da loja do meu pai.
Tenho saudades das vozes dos nossos clientes Ngoya.
Tenho saudades da paisagem.
Tenho saudades do cheiro da terra.
Tenho saudades de uma versão de mim próprio que só existiu naquele lugar.
Isso não significa desejar restaurar 1974.
Não significa negar a independência de Angola.
Não significa acreditar que Angola deveria pertencer a Portugal.
Angola pertence aos angolanos.
Mas existe uma diferença profunda entre possuir uma terra e ter uma terra dentro de nós.
Nenhuma independência política pode ordenar ao coração que deixe de reconhecer a paisagem onde nasceu.
X — ANGOLA NÃO ME PERTENCE. MAS PERTENCE À MINHA HISTÓRIA.
Com o passar dos anos, aprendi a formular esta ideia de maneira mais precisa.
Eu não reclamo Angola.
Reclamo apenas o direito à minha memória de Angola.
São coisas diferentes.
Tenho profundo respeito pelo direito dos angolanos de construir a sua própria identidade nacional.
Mas também recuso a ideia de que, para respeitar esse direito, devo apagar os primeiros dezasseis anos da minha existência.
Eu nasci lá.
Eu cresci lá.
Aquela terra ajudou a formar a minha linguagem emocional.
A África entrou na minha forma de observar o mundo antes mesmo de eu compreender o significado político da palavra África.
Por isso considero-me um homem construído por várias geografias.
Angola deu-me a infância.
Portugal deu-me uma herança linguística e cultural.
Os Açores deram-nos abrigo durante uma etapa da travessia.
A América deu-me a oportunidade de reconstruir.
Foi nos Estados Unidos que estudei engenharia, formei família, desenvolvi uma carreira e construí uma vida que o jovem que saiu de Santa Comba em 1975 dificilmente conseguiria imaginar.
Mas reconstrução não significa substituição.
Uma vida nova não apaga a anterior.
Acrescenta-se a ela.
XI — DA LOJA DO MEU PAI À ENGENHARIA
Às vezes pergunto-me quanto daquele rapaz da loja do meu pai entrou comigo na universidade e, mais tarde, nos laboratórios e salas de engenharia da América.
Provavelmente muito.
Naquela loja aprendi a observar.
Aprendi que pessoas diferentes procuram coisas diferentes.
Aprendi a resolver problemas.
Aprendi responsabilidade.
Aprendi a falar com adultos quando ainda era criança.
Aprendi que confiança se conquista.
Décadas depois, trabalhando como engenheiro e liderando equipas técnicas, reconheci muitas dessas mesmas lições noutra linguagem.
A engenharia ensinou-me a reconstruir sistemas.
A vida ensinou-me a reconstruir a mim próprio.
Talvez seja esse um dos legados menos estudados do êxodo de 1975.
Aquela geração não desapareceu.
Espalhou-se.
Portugal.
Brasil.
África do Sul.
Estados Unidos.
Canadá.
Austrália.
Venezuela.
França.
E tantos outros lugares.
Levou consigo conhecimentos, hábitos, memórias e uma extraordinária capacidade de recomeçar.
XII — QUEM PERDEU MAIS?
É tentador fazer esta pergunta.
Quem perdeu mais?
Os portugueses que partiram?
Os angolanos que ficaram?
Os africanos que tinham sofrido sob o colonialismo?
As famílias apanhadas na guerra civil?
Os que morreram?
Os que emigraram?
Os que sobreviveram mas nunca recuperaram o que tinham?
Considero esta pergunta moralmente pobre.
A dor não é uma competição.
Não precisamos de diminuir a tragédia de alguém para legitimar a nossa.
Os angolanos que sofreram discriminação merecem ser ouvidos.
Os africanos apanhados nas guerras merecem ser ouvidos.
Os portugueses e luso-angolanos expulsos ou forçados a fugir merecem ser ouvidos.
Os mestiços que ficaram entre identidades merecem ser ouvidos.
Os antigos combatentes merecem ser ouvidos.
As mães merecem ser ouvidas.
As crianças merecem ser ouvidas.
Uma História verdadeiramente humana não pergunta primeiro:
“De que lado estava?”
Pergunta:
“O que lhe aconteceu?”
XIII — O PERIGO DAS MEMÓRIAS ÚNICAS
As sociedades gostam de narrativas simples.
São fáceis de ensinar.
Fáceis de defender.
Fáceis de transformar em slogans.
Mas a História raramente é simples.
Quando uma sociedade decide que só existe uma memória legítima, começa a expulsar novamente aqueles cujas experiências não cabem nessa narrativa.
É uma segunda forma de exílio.
Primeiro perdemos a terra.
Depois pedem-nos que percamos também a versão da História que vivemos.
Recuso isso.
Mas recuso igualmente a tentação oposta: transformar a minha memória numa arma contra a memória dos outros.
É possível defender o nosso testemunho sem silenciar ninguém.
É possível dizer:
“Foi isto que vivi.”
Sem acrescentar:
“Por isso, aquilo que viveste não aconteceu.”
Esta talvez seja uma das maiores responsabilidades da minha geração.
XIV — CINQUENTA ANOS DEPOIS
Quando saí de Angola tinha 16 anos.
Hoje tenho 67.
Mais de meio século separa aqueles dois homens.
O adolescente não compreendia completamente o que estava a acontecer.
O homem de hoje teve cinquenta anos para pensar.
Para ler.
Para recordar.
Para duvidar.
Para comparar memórias.
Para ouvir outras pessoas.
Para compreender que algumas das nossas certezas juvenis eram incompletas.
Mas também para compreender que há coisas que os documentos nunca conseguirão substituir.
O medo daquela madrugada.
A incerteza dos meus pais.
A estrada para Nova Lisboa.
A sensação de não saber se voltaríamos.
O momento em que percebemos que não voltaríamos.
Isso pertence à História também.
XV — PORQUE ESCREVO
Escrevo porque a memória desaparece quando a última testemunha deixa de falar.
A minha geração está a envelhecer.
A geração dos nossos pais quase desapareceu.
Um dia, os acontecimentos de 1975 deixarão de existir na memória viva.
Restarão documentos.
Fotografias.
Filmes.
Arquivos.
Livros.
E aquilo que tivermos tido a coragem de escrever.
É por isso que escrevo.
Não para alimentar rancores.
Não para pedir restituição de um mundo que já não existe.
Não para defender impérios.
Não para negar independências.
Escrevo porque os meus filhos e netos têm o direito de saber de onde veio o homem que conheceram na América.
Antes do engenheiro.
Antes do marido.
Antes do pai.
Antes do avô.
Existiu um menino em Santa Comba.
Existiu um jovem no Waku-Kungo.
E esse jovem continua dentro de mim.
XVI — O QUE ESTE DOCUMENTÁRIO ME DEVOLVEU
Retornados ou os Restos do Império devolveu-me uma pergunta que talvez nunca tenha resposta definitiva.
Onde fica a nossa pátria quando a terra onde nascemos deixa de ser politicamente aquilo que conhecíamos?
Talvez a resposta esteja na própria memória.
Portugal foi origem.
Angola foi nascimento.
A América tornou-se reconstrução.
Hoje não preciso de escolher apenas uma dessas realidades para compreender quem sou.
Sou o resultado de todas elas.
Talvez seja esse um dos significados mais profundos da diáspora.
Não somos necessariamente pessoas sem pátria.
Podemos ser pessoas que aprenderam a carregar várias pátrias dentro do mesmo coração.
XVII — UMA MENSAGEM ÀS NOVAS GERAÇÕES
Aos jovens portugueses e angolanos que nasceram décadas depois de 1975, gostaria de deixar um pedido.
Estudem aquele período.
Questionem-nos.
Não aceitem automaticamente as nossas versões.
Procurem documentos.
Leiam perspectivas diferentes.
Escutem portugueses.
Escutem angolanos.
Escutem africanos que lutaram pela independência.
Escutem famílias que fugiram.
Escutem aqueles que ficaram.
Escutem principalmente quando as histórias se contradizem.
É precisamente aí que começa o verdadeiro estudo da História.
E nunca permitam que alguém vos convença de que compreender o sofrimento de uma pessoa significa tomar partido contra outra.
A compaixão não precisa de fronteiras ideológicas.
CONCLUSÃO — RETORNADO PARA ONDE?
Depois de assistir a este documentário, volto à pergunta inicial.
Retornado para onde?
Talvez, administrativamente, eu tenha sido um retornado.
Historicamente, fiz parte do enorme movimento populacional provocado pelo fim do império português em África.
Mas emocionalmente?
Não.
Eu era um jovem desalojado da única terra que conhecia como casa.
Saí de Angola em 6 de Agosto de 1975.
Cheguei aos Estados Unidos exactamente um ano depois.
A vida continuou.
Construí uma família.
Estudei.
Tornei-me engenheiro.
Trabalhei durante décadas.
Plantei novas raízes.
Criei a minha própria Xitaka em Idaho.
Escrevi.
Compus música.
Voltei a procurar as palavras Ngoya que ouvira quando criança.
E descobri uma coisa extraordinária:
podemos sair de uma terra sem que essa terra alguma vez saia completamente de nós.
Não sou um resto de império.
Sou uma testemunha de uma época.
Sou filho de uma família que teve de recomeçar.
Sou produto de Angola, da cultura portuguesa e da oportunidade americana.
Sou um homem que aprendeu, através da própria vida, que as fronteiras políticas podem mudar numa noite, mas a identidade humana leva décadas — por vezes uma vida inteira — a compreender aquilo que perdeu.
Por isso escrevo estas palavras sem ódio.
Sem desejo de regressar ao passado.
Sem negar a liberdade de ninguém.
Mas também sem pedir licença para recordar.
Porque recordar a nossa casa não é colonialismo.
Recordar a nossa infância não é revisionismo.
Contar aquilo que vivemos não é negar aquilo que outros viveram.
É testemunhar.
E enquanto ainda existirem testemunhas, devemos escutá-las.
Porque os impérios acabam.
Os governos caem.
As bandeiras mudam.
Os mapas são redesenhados.
Mas a memória não reconhece fronteiras.
E talvez seja essa a última pátria daqueles que um dia foram obrigados a partir.
Documentário que inspirou esta reflexão
Retornados ou os Restos do Império
Realização: Leandro FerreiraCo-produção: Continental
Filmes / RTP
Autoria: Dulce Cardoso e Luís Lopes
Documentário originalmente apresentado pela RTP no contexto do debate sobre descolonização, deslocamento e integração dos portugueses provenientes das antigas colónias.
Vídeo:
Nota do autor
Este texto combina memória autobiográfica com enquadramento histórico. As recordações sobre Santa Comba/Waku-Kungo, a minha família e os acontecimentos de 6 de Agosto de 1975 representam a minha experiência pessoal e não pretendem substituir outras experiências angolanas ou portuguesas daquele período. Sobre o contexto histórico foram consultados, entre outros, o Arquivo e os conteúdos históricos da RTP, o texto do Acordo do Alvor, documentação do Arquivo Histórico da Presidência da República e investigação académica publicada em Análise Social.
João Elmiro da Rocha Chaves — Mákálé
Filho de Santa Comba, Cela — Waku-Kungo, Kwanza-Sul, Angola
“Não peço ao futuro que concorde com a minha memória. Peço apenas que não a apague.”





Comentários