A Magia da Simplicidade: Brincadeiras Criativas em Waku Kungo
- elmirochaves

- 6 de out. de 2024
- 3 min de leitura
Crescer na antiga Santa Comba (hoje Waku Kungo), Angola, nos anos dourados da minha infância, foi como viver uma aventura sem fim. Num tempo em que os recursos eram escassos, a nossa imaginação era o tesouro mais valioso que possuíamos. Nada exemplifica melhor essa engenhosidade do que as tratinetes (trotinetes) de madeira que construíamos com nossas próprias mãos — verdadeiros ícones das nossas brincadeiras.
Essas tratinetes eram obras-primas de criatividade. Reaproveitávamos tábuas de madeira de construções inacabadas ou reformas que encontrávamos, e com um pouco de destreza manual e muita imaginação, transformávamos esses materiais simples em veículos que nos traziam horas de diversão. A estrutura começava com duas tábuas verticais unidas por uma tábua horizontal, formando um guidão em forma de T. Mas o verdadeiro desafio era encontrar as rodas perfeitas. Não tínhamos acesso a rodas convencionais, então, usávamos rolamentos de esferas de tratores — grandes esferas de metal que deslizavam como se fossem feitas para isso. O resultado? Veículos que, apesar de rústicos, proporcionavam uma aventura inesquecível pelas ruas de terra.
Se observarmos bem, até mesmo os mopeds e patinetes elétricos de hoje em dia seguem um design básico semelhante. Mas a nossa versão, com seu toque artesanal e improvisado, trazia uma sensação única de conquista e liberdade. Veja na imagem abaixo como eram as nossas tratinetes:
Cada trotinete tinha a sua personalidade. Uns eram mais rápidos, outros mais fáceis de manobrar, mas todos eram motivo de orgulho para quem os construía. Reuníamos a criançada e, com nossas tratinetes, competíamos em corridas emocionantes pelas ladeiras do Waku Kungo. A sensação de liberdade que esses veículos improvisados proporcionavam era incomparável — o vento no rosto e o riso compartilhado entre amigos tornavam cada tarde um evento memorável.
Essas tratinetes eram muito mais que brinquedos; representavam a nossa habilidade de criar o extraordinário a partir do comum. Naquelas tardes ensolaradas, em que o mundo parecia nosso, aprendemos uma lição que levamos para a vida: a simplicidade e a criatividade são a chave para a verdadeira alegria. Olhando para trás, percebo que essas experiências moldaram minha maneira de ver o mundo. A capacidade de criar com poucos recursos foi uma lição de engenhosidade que levo até hoje, tanto na minha vida pessoal quanto profissional. O que começamos com uma tábua e algumas peças de trator, aplico agora em projetos complexos, sempre lembrando que a simplicidade muitas vezes é a melhor solução.
Outra invenção fascinante eram os aviões feitos com o miolo das canas de milho secas. Nós os construíamos com capricho, prendíamos uma linha forte na frente, e corríamos com toda a nossa energia para vê-los voar pelos céus. Em uma tentativa ousada, até amarrei uma libélula ao meu avião, acreditando que ela poderia impulsioná-lo ainda mais alto. Embora o plano não tenha dado certo, foi uma experiência que gerou muitas gargalhadas.
Waku Kungo também abrigava sua própria joia arquitetónica: a imponente igreja barroca portuguesa, que dominava o centro da cidade. Suas torres altas e a fachada ornamentada eram um lembrete constante da mistura de culturas e da história europeia, fincada no coração da Angola rural. Era um lugar que, para nós, representava a grandeza em meio à simplicidade.
Hoje, com a era da tecnologia e do consumo em massa, é fácil esquecer a magia dessas pequenas invenções e brincadeiras. Mas as lições de Waku Kungo permanecem vivas em mim: a verdadeira felicidade não vem de brinquedos caros ou avanços tecnológicos, mas da capacidade de transformar o ordinário em momentos extraordinários, com nada além de imaginação e engenhosidade.





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