Como os Retornados das Províncias Ultramarinas Mudaram Portugal após 1975
- elmirochaves

- 10 de set. de 2024
- 3 min de leitura
A história dos retornados, ou refugiados das províncias ultramarinas, tem sido um dos capítulos mais complexos e marcantes da história contemporânea de Portugal. Quando em 1974 se deu o 25 de Abril, e em 1975 a independência das colónias africanas (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe), centenas de milhares de portugueses que viviam nesses territórios regressaram a Portugal, num contexto de grande instabilidade política, social e económica.
Estima-se que cerca de 500 mil retornados tenham chegado a Portugal entre 1974 e 1976, num país que ainda tentava consolidar a sua nova democracia, saindo de uma ditadura de quase meio século e a braços com uma crise económica. Mas a integração desta população, longe de ser apenas um fardo para o país, trouxe mudanças profundas que impactaram a sociedade, a economia e a cultura portuguesas.
O Impacto Social
O fenómeno dos retornados gerou um choque inicial, não apenas pela magnitude do número de pessoas que regressaram, mas também pelas diferenças de mentalidade entre aqueles que haviam passado décadas em África e a população que havia permanecido em Portugal. Muitos retornados tinham uma visão do mundo mais aberta, devido à convivência em sociedades multirraciais e multiculturais, algo que era raro na Portugal continental da época. Esta experiência diferenciada trouxe novos ares à vida social portuguesa.
Os retornados enfrentaram desafios significativos. Muitos chegaram sem recursos financeiros, após perderem bens e propriedades nas antigas colónias. Foram alojados em hotéis, escolas e outras infraestruturas improvisadas. No entanto, apesar das dificuldades iniciais, muitos destes migrantes conseguiram integrar-se, recorrendo à sua capacidade de adaptação e espírito empreendedor.
Contribuições Económicas
Uma das maiores contribuições dos retornados para a reconstrução do Portugal pós-25 de Abril foi no campo económico. Os retornados trouxeram consigo conhecimentos e experiências de gestão, comércio e agricultura, especialmente nas áreas de exploração agrícola e empresarial. Muitos tinham dirigido empresas em Angola ou Moçambique e, ao regressarem a Portugal, começaram a abrir negócios, contribuindo para o aumento do empreendedorismo em várias regiões do país.
O impacto dos retornados foi sentido também no setor imobiliário. As necessidades de alojamento impulsionaram a construção de novos bairros e urbanizações nas periferias de Lisboa e Porto. O governo português, com o apoio de organismos internacionais, desenvolveu programas de habitação social e de reintegração para apoiar os retornados.
Inovação Cultural e Educacional
Do ponto de vista cultural, os retornados trouxeram um novo dinamismo. Muitos retornados eram educados e formados em ambientes cosmopolitas, o que fez com que influenciassem o sistema educativo português. As escolas em Portugal começaram a incorporar novos métodos de ensino e ideias trazidas por professores e académicos que tinham trabalhado nas províncias ultramarinas. Além disso, esta nova população contribuiu para o desenvolvimento de movimentos artísticos e literários, enriquecendo o panorama cultural português com novas perspectivas e experiências.
A música, a gastronomia e até a língua foram influenciadas por esta diáspora. Palavras e expressões das antigas colónias africanas, como “manga”, “candonga” e “musseque”, começaram a entrar no léxico popular, e pratos típicos como a moamba de galinha tornaram-se mais comuns na mesa dos portugueses.
Integração e Superação
Embora tenha havido tensões iniciais, com a percepção de que os retornados representavam uma sobrecarga para o Estado e para o mercado de trabalho, com o tempo, a sociedade portuguesa adaptou-se. Muitos retornados acabaram por se destacar nas áreas da política, economia, educação e cultura, demonstrando uma resiliência admirável.
A superação das adversidades tornou-se parte da narrativa dos retornados. Em vez de se limitarem a recordar com nostalgia a vida nas províncias ultramarinas, muitos deles abraçaram a oportunidade de começar de novo, participando ativamente no desenvolvimento do país.
Considerações Finais
Os retornados, longe de serem um grupo homogéneo e estático, foram atores dinâmicos na transformação de Portugal pós-1975. A sua chegada, que inicialmente provocou receios e incertezas, revelou-se um catalisador para a modernização do país, introduzindo novos valores, práticas e ideias que contribuíram para o crescimento económico e o enriquecimento cultural. Mais do que um simples regresso, foi um novo começo, tanto para os retornados como para Portugal.
Fontes Consultadas:
• Rosário, Fernando. O Regresso das Colónias – O Impacto dos Retornados em Portugal. Lisboa: Livros Horizonte, 2007.
• Cavaco Silva, Aníbal. As Reformas Económicas dos Anos 80 em Portugal. Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015.
• Lains, Pedro. A Economia Portuguesa no Século XX. Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 1999.
• Lourenço, Eduardo. O Labirinto da Saudade. Gradiva, 2017.





Comentários