Como os Retornados das Províncias Ultramarinas Mudaram Portugal após 1975 e Ajudaram a Salvar o País do Comunismo
A história dos retornados após 1975 é indissociável das profundas transformações políticas que Portugal atravessou naquele período. A descolonização, o regresso de centenas de milhares de portugueses das antigas colónias e o processo de consolidação da democracia são elementos centrais desta narrativa. Além de terem contribuído significativamente para o desenvolvimento económico e social do país, os retornados tiveram um papel crucial na luta contra a ameaça comunista, garantindo que Portugal permanecesse uma nação democrática e integrada no mundo ocidental.
O Contexto Político em 1975
O ano de 1975 foi marcado por uma intensa turbulência política em Portugal. Após o 25 de Abril de 1974, que derrubou o regime do Estado Novo, o país entrou num período revolucionário em que várias forças políticas competiam pelo controlo do futuro de Portugal. Entre estas forças, destacavam-se o Partido Comunista Português (PCP) e as forças de extrema-esquerda, que viam no colapso do regime uma oportunidade para implantar um regime comunista em Portugal, à semelhança dos modelos soviético e cubano.
Durante o chamado Verão Quente de 1975, o país esteve à beira de uma guerra civil. Manifestações, ocupações de fábricas e de terras, nacionalizações e a crescente influência comunista nas forças armadas provocaram uma divisão profunda na sociedade portuguesa. Neste cenário de grande incerteza, os retornados desempenharam um papel vital na defesa da democracia e na resistência ao avanço comunista.
A Influência dos Retornados no Processo Político
Muitos dos retornados que chegaram a Portugal após a independência das colónias tinham vivido de perto os conflitos e as tensões que o movimento comunista ajudou a fomentar em África, especialmente através dos movimentos de libertação apoiados pela União Soviética e Cuba. Ao regressarem a Portugal, traziam consigo uma visão clara dos perigos de um regime totalitário de esquerda e estavam determinados a evitar que o país seguisse o mesmo caminho.
O regresso dos retornados coincidiu com a ascensão de uma classe política e militar alinhada com a esquerda radical. Muitos retornados, que se encontravam agora numa situação vulnerável, com a perda das suas propriedades e bens nas ex-colónias, rapidamente se mobilizaram contra as tendências comunistas que começavam a ganhar força em Portugal. A sua experiência prévia em África fez deles opositores firmes do comunismo, sabendo dos riscos que ele representava para as liberdades individuais, a economia e a democracia.
Os retornados integraram-se rapidamente em movimentos políticos moderados, como o Partido Social Democrata (PSD) e o Partido Popular Democrático (PPD), liderados por figuras como Francisco Sá Carneiro, e também no Centro Democrático Social (CDS), sob a liderança de Diogo Freitas do Amaral. Estes partidos defendiam uma economia de mercado, a integração europeia e uma democracia pluralista, em oposição à visão marxista-leninista que o PCP tentava implementar.
A Manifestação do 25 de Novembro de 1975
Um dos momentos mais cruciais em que a influência dos retornados foi sentida foi durante a crise do 25 de Novembro de 1975. Nesta data, um grupo de oficiais moderados liderado por António Ramalho Eanes e Jaime Neves conseguiu derrotar uma tentativa de golpe militar promovida por forças radicais de esquerda, apoiadas pelo PCP e alguns setores do Movimento das Forças Armadas (MFA). Esta vitória foi um ponto de viragem, que assegurou o fim da deriva revolucionária e abriu o caminho para a consolidação da democracia em Portugal.
Os retornados, muitos deles concentrados nas grandes cidades como Lisboa e Porto, participaram ativamente em manifestações de apoio às forças moderadas e democráticas. A sua presença nos protestos e nas campanhas políticas contra a influência comunista ajudou a galvanizar a opinião pública contra o PCP e os seus aliados.
Contribuições Políticas a Longo Prazo
Após o 25 de Novembro, os retornados continuaram a ter um impacto significativo no panorama político português. Muitos deles tornaram-se líderes empresariais, intelectuais e políticos influentes, ajudando a moldar as políticas que guiaram o país na transição para a democracia. Ao longo das décadas de 1980 e 1990, figuras que haviam sido profundamente influenciadas pelas suas experiências em África ou pela luta contra o comunismo em Portugal desempenharam papéis de destaque no governo, nas instituições públicas e na sociedade civil.
A entrada de Portugal na Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1986, sob a liderança de Mário Soares, também foi uma consequência direta da rejeição do comunismo e da escolha do país por um caminho de integração ocidental. Muitos retornados, que tinham sido profundamente influenciados pelos ideais de liberdade e desenvolvimento económico que encontraram em África, viram na adesão à CEE uma oportunidade de crescimento e modernização para o país.
O Legado dos Retornados na Defesa da Democracia
A história dos retornados em Portugal não é apenas a de um grupo de pessoas que tiveram de se adaptar a uma nova realidade económica e social. É também a história de como, através da sua experiência e das suas convicções, ajudaram a salvar Portugal de cair nas mãos do comunismo em 1975. A sua luta, juntamente com a de muitos outros portugueses, garantiu que o país seguisse o caminho da liberdade, da democracia e da integração europeia.
Hoje, é inegável que o contributo dos retornados foi decisivo para a consolidação da democracia portuguesa. A sua resiliência e capacidade de adaptação, aliadas à sua firme oposição ao comunismo, ajudaram a construir o Portugal moderno, integrado na Europa e com uma economia aberta e dinâmica.
Fontes Consultadas:
• Ribeiro, António Barreto. Portugal – Um Retrato Social. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.
• Rosas, Fernando. A Revolução Portuguesa: O 25 de Abril e o Processo Revolucionário de 1974-1975. Edições Afrontamento, 2010.
• Neves, Jaime. 25 de Novembro: A Última Batalha da Revolução. Lisboa: Bertrand Editora, 2005.
• Sá Carneiro, Francisco. O Caminho para a Democracia. Lisboa: Editorial Inova, 1977.
• Freitas do Amaral, Diogo. Um Passo em Frente. Porto: Edições Asa, 1986.






Comentários