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O Cinema do Trinità e a Magia da Amizade em Santa Comba, Cela - Angola

Em Santa Comba, Cela, nos anos 70, durante a semana, a loja do meu pai era o cenário de dias de trabalho duro, mas a grande recompensa era a matiné no clube nos Domingos, aonde eu e os meus amigos nos reuníamos para assistir aos filmes que Arnaldo Almeida, sempre atento, projetava com perfeição.

Nós, um grupo inseparável de amigos, ansiávamos por esses momentos. Raquel Ferreira, sempre radiante, Jose Esteves Pereira, José Eurico Ferreira, Joaquim Vicente Garcia Piteira, Humberto Filipe Figueiredo, Pedro Carvalho, Maria de Deus Aragão, Augusto Aranha Mendes, Saul Paradela, Eduardo Matos, Gertrudes Brioa, Olga Rodrigues, Perpétua, Amélia, Olga Salvador, Olga Machado, Albano Ferreira, Ana Gonçalves, Carlos Octávio Varelas, António Salvaterra, Zé Pereira Bravo, Vasco, Jorge, São e irmã Helena Pereira, José Marques, António Joaquim Pinto Sousa, e tantos outros que formavam a nossa turma de amigos do coração de sempre e para sempre.


Um Domingo, em especial, prometia ser memorável. O filme em cartaz era “Eles Chamam-me Trinità”, e a excitação estava no ar. Eu já tinha assistido a todos os filmes de Trinità e adorava o jeito astuto e preguiçoso do pistoleiro, que chegava à cidade para ajudar seu irmão, um ladrão disfarçado de xerife, a enfrentar o fazendeiro tirano. A mistura de ação e humor fazia a gente rir alto, e sabíamos que aquela tarde seria uma das melhores.


Ao chegar no clube, o ambiente estava lotado, mas nossos lugares de sempre já nos esperavam. Raquel e Maria de Deus conversavam animadamente, enquanto José Eurico e Pedro já discutiam as cenas mais engraçadas dos filmes anteriores. Gertrudes, Olga e São estavam sempre prontas para as risadas que vinham com as trapalhadas de Trinità. Joaquim e Humberto, como sempre, faziam piadas, e nós todos nos juntávamos à brincadeira.


Quando Arnaldo ligou o projetor e as luzes do clube se apagaram, o som familiar do rolar do filme encheu o salão. Era como se, naquele momento, o mundo se resumisse à nossa pequena comunidade e àquelas histórias de faroeste que tanto amávamos. Durante algumas horas, éramos transportados para outro lugar, vivendo as aventuras de Trinità como se estivéssemos ao seu lado.


Esses momentos com os meus amigos foram alguns dos mais felizes da minha infância. Não eram apenas os filmes que nos divertiam, mas a companhia uns dos outros, o riso compartilhado e a leveza da juventude. Naquele domingo, como em tantos outros, a vida em Santa Comba era boa, e nós, juntos, éramos invencíveis.


Conforme o filme ia avançando, nós nos perdíamos nas cenas cheias de ação e humor. Trinità, com seu jeito malandro e preguiçoso, arrancava gargalhadas de todos. Lembro-me de José Esteves e Joaquim Vicente se dobrando de tanto rir quando Trinità, com uma única mão, derrotava seus inimigos enquanto mantinha a outra ocupada comendo um prato de feijão. Era esse tipo de cena absurda que nos fazia esquecer do mundo ao redor, das responsabilidades e dos desafios do cotidiano.


Raquel, com seu sorriso contagiante, comentava baixinho com Maria de Deus sobre como o ator principal era charmoso, enquanto Pedro Carvalho e Humberto discutiam, com seriedade cômica, se as proezas de Trinità eram mesmo possíveis ou pura invenção. “Duvido que alguém consiga fazer isso na vida real!”, exclamava Humberto, e nós todos caíamos na risada.


Gertrudes, Olga e São, sempre com suas observações rápidas e espirituosas, completavam a atmosfera de camaradagem. O Arnaldo, lá do alto, no seu posto de comando do projetor, parecia compartilhar do nosso entusiasmo, garantindo que tudo fluísse sem problemas. Ele sabia o quanto aqueles momentos eram especiais para nós, e fazia o seu trabalho com a dedicação de alguém que entendia a importância do cinema em nossas vidas.


Ao fim da sessão, saímos do clube com o coração leve. O sol já estava começando a se pôr, tingindo o céu de um laranja suave, e nós caminhávamos juntos pelas ruas de Santa Comba, comentando cada cena, rindo das piadas do filme, mas também dos nossos próprios comentários e brincadeiras.


Aquele sentimento de liberdade e felicidade, de estar cercado pelos meus amigos, era o que fazia tudo valer a pena. No caminho de volta para casa, passei pela loja do meu pai, que já estava fechando. Ainda podia sentir o cheiro das mercadorias, dos tecidos e dos produtos que organizava durante a semana, mas naquele momento, tudo parecia mais leve, como se o trabalho não fosse mais uma obrigação, e sim uma parte da rotina que levava àquelas tardes mágicas no cinema.


Esses dias foram, sem dúvida, alguns dos mais felizes da minha vida. A simplicidade da época, a amizade verdadeira e as risadas compartilhadas em torno dos filmes de Trinità fizeram daquela infância um tesouro que carrego comigo até hoje.


FIM


Em memória dos meus queridos amigos Raquel Ferreira, Humberto Filipe Figueiredo e José Esteves Pereira, guardo no coração a lembrança dos momentos de alegria e companheirismo que compartilhamos em Santa Comba. Eles foram parte essencial da minha infância, com suas risadas, conversas e presenças calorosas que tornaram nossos dias mais felizes. Raquel, com seu sorriso sempre luminoso; Humberto, com seu senso de humor inigualável; e José Esteves, com sua amizade leal e generosa. Embora já não estejam fisicamente entre nós, suas memórias continuam vivas em cada recordação que guardo com carinho.



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